08 fev

Sobre o fim do Miitomo

Então, a Nintendo vai matar o Miitomo. Dia 09/05/2018 o aplicativo vai parar de funcionar por completo, se tornando um ícone morto no celular de quem ainda o tem. Devo dizer que não é uma surpresa muito grande, pois era claro que pouquíssimas pessoas ainda o usavam.

Mas ainda existia uma pessoa que usava o Miitomo, não para seu propósito original, mas para fazer vídeos no YouTube.

Sim, estou falando de mim mesmo. Sim, eu tiro o meu mii do Miitomo para fazer os vídeos. E sim, o fim do Miitomo vai afetar o canal.

Todavia, eu tenho muito a dizer sobre o fim do Miitomo em si. Por isso, ao invés de fazer um vídeo gigante abarrotado de informação, resolvi separar em dois: neste, vou falar do fim do Miitomo, e onde eu acho que a Nintendo errou na sua criação, e depois faço outro falando do que vai acontecer com o canal.

Até porque ainda não decidi o que vou fazer, então estou enrolando pra dar mais tempo pra eu pensar.

Esta é a transcrição do vídeo de mesmo nome que está no meu canal do YouTube. Vão lá conhecer!

Pra quem não lembra ou nunca sequer ficou sabendo, o Miitomo foi o primeiro aplicativo da Nintendo para celulares, e não era um game, era algo mais próximo de uma rede social. Nele, criávamos um mii pra conversar com nossos amigos, mas ao invés de funcionar igual a um aplicativo de chat que nem o Whatsapp, nós respondíamos perguntas pré-determinadas pelo aplicativo e nossos amigos comentavam as nossas respostas e vice-versa. A idéia era criar tópicos para facilitar conversas diferentes com seus amigos.

Além das conversas, outra grande parte do Miitomo era customizar as roupas dos miis e tirar fotos com eles. Era assim que a Nintendo fazia dinheiro com o aplicativo, pois dava pra comprar moedinhas pra comprar roupas na lojinha do jogo.

Muito bem, quando o Miitomo foi anunciado, escrevi um texto sobre como estava animado com a idéia, que a proposta do aplicativo mostrava a Nintendo tentando entender um tipo de hardware novo pra ela e criando algo específico pra ele, ao invés de fazer aquilo que todo mundo queria que ela fizesse, que era simplesmente converter os jogos antigos dela para celulares sem tirar nem pôr. E, sendo sincero, ainda penso assim, prefiro que a empresa continue se esforçando para criar experiências específicas para celular do que só reaproveitando o que já existe. Aumenta a chance de sair algo mais interessante.

Infelizmente, eu quebrei a cara e Miitomo não conseguiu ser interessante o bastante, nem para sobreviver no mercado mobile, nem para mim pessoalmente, pois depois de algum tempo eu larguei o aplicativo.

Se smartphones tivessem lixeiras, muitos estariam assim.

Não posso falar por todo mundo que desistiu de Miitomo, mas agora, quando eu penso no porque eu parei de usá-lo como uma rede social, eu vejo uma seqüência de problemas interligados que me afastaram dele.

Tudo começou com as perguntas perdendo a graça depois de algum tempo, e o fato de que se você jogava demais num único dia, elas começavam a se repetir. Não sei quantas vezes meu mii perguntou qual celebridade eu achava que ia estourar a qualquer momento, uma pergunta que não apenas não me interessa como só gerava um tipo de piada, exemplificada na quantidade de vezes que eu respondi “o Gugu”.

Essas perguntas desinteressantes geravam comentários desinteressantes, e raramente o diálogo andava pra frente. A maior parte das vezes a conversa ficava num “é mesmo”, ou “que legal”, ou “hahaha”, ou “prefiro o Luciano Huck”. E mesmo eu só respondia esse tipo de coisa também, porque comentar nas repostas dos amigos dava moedinhas.

O que nos traz para o próximo problema: por mais que a idéia do aplicativo fosse incentivar diálogos diferentes, o fato das respostas e os coraçõezinhos darem prêmios quantificáveis criavam uma certa sensação de falsidade nelas, pois às vezes não dava pra saber se a pessoa realmente gostou da minha resposta ou se ela só queria moedinhas. Falo isso porque eu, muitas vezes, só queria as moedinhas mesmo. Sim, eu sou um Falsoberto, mas é o que o jogo estava me incentivando a fazer.

Mentir no meu profile do facebook? Quem, eu???

Outro grande incentivo de Miitomo era mentir na hora de responder. Sim, eu sei que todo mundo mente no próprio perfil das inúmeras redes sociais que participamos para esconder o vazio e o desespero que nos acomete no dia a dia, mas no caso do Miitomo, eu mentia por preguiça. Para ganhar as moedinhas, tínhamos que responder a uma certa quantidade de perguntas por dia, e chegava uma hora que dava no saco ficar pensando no que responder. Conseqüência: comecei a inventar respostas simples só pra ganhar logo as moedinhas e fim.

Aí, para piorar ainda mais o funcionamento dos incentivos de Miitomo, temos a famosa aversão à perda (antes de eu continuar, quero deixar claro que não sou um psicólogo nem um neurologista, e vou explicar de maneira simplificada o conceito de aversão à perda, e é bem capaz de eu estar enganado, e agradeço quem puder me corrigir). Aversão à perda é o fato de nós, seres humanos, sentirmos muito mais a dor de perder do que a alegria de ganhar. O impacto emocional é maior quando, por exemplo, perdemos cinco reais do que quando ganhamos cinco reais. É um comportamento natural do nosso cérebro, não sei porque acontece, só sei que acontece. Inclusive, é por isso que muita propaganda usa a frase “não perca”, tipicamente ligada à frase “é só até amanhã”, é uma estratégia de vendas pra atiçar a nossa aversão à perda, pois não queremos sentir a dor de ter perdido um desconto tão bom, mesmo quando é um produto que não precisamos com um desconto que não é tão bom assim.

Uma das maneiras que o Miitomo (e um monte de outros jogos free to play) explora esse viés do nosso cérebro é com pequenas recompensas diárias, ligadas a ações simples dentro do aplicativo. Aquela coisa de você entrar todo dia para ganhar algum premiozinho básico. Ou melhor, nosso cérebro enxerga assim: SE NÃO ENTRAR TODO DIA, VOU PERDER O PRÊMIO DIÁRIO! ELE TÁ LÁ! ME ESPERANDO! É SÓ JOGAR UM POUQUINHO! SENÃO VOU PERDER ELE! AAAAAAAH!

AAAAAAAH!

Com esses incentivos me manipulando em Miitomo, o que acabou acontecendo? Eu só fazia o mínimo necessário pra ganhar o máximo de moedinhas diárias, pouco me importando com todo o aspecto social do aplicativo.

Todavia, com o tempo, a minha aversão à perda das moedinhas diárias entrou em conflito com outros sentimentos meus, como não querer ficar sendo um Falsoberto com os meus amigos. E também com a minha preguiça de abrir o Miitomo todo dia. Principalmente com essa preguiça.

Conseqüência: parei de usar o Miitomo. A minha ganância por moedinhas perdeu, e todo o resto da minha vida ganhou.

Assim chegamos naquilo que, a meu ver, é o problema fundamental do Miitomo, a grande falha da premissa central dele: raramente uma conversa forçada é uma boa conversa.

Seguinte: responder uma pergunta tonta que alguém solta no twitter ou no facebook e chamar seus amigos pra responder porque você achou engraçado ou interessante é uma (possível) diversão, responder perguntas tontas todo dia para ganhar moedinhas é uma obrigação.

Ou seja, ao “gamificar” as nossas conversas com recompensas diversas, o tiro saiu pela culatra e a Nintendo, ao invés de incentivar diálogos diferentes, incentivou diálogos superficiais e, de certo modo, falsos, alimentados mais pela ganância por moedinhas que qualquer outra coisa.

“LUUUUCROOOOO!!!” – Tatsumi Kimishima, presidente da Nintendo, sobre a iniciativa mobile da empresa

O que é uma situação um tanto irônica, quando paramos pra pensar. Que no fim foi a Nintendo que “gamificou” e monetizou a falsidade humana, ao invés da EA ou da Konami, empresas que provavelmente queriam fazer isso. Mas acho que é o tipo de coisa que só acontece mesmo quando alguém age com a melhor das intenções e o tiro sai pela culatra.

E, antes que alguém comente, sim, eu sei que eu estou exagerando um pouco essa questão toda da falsidade das conversas do Miitomo, e que pra maioria das pessoas ele provavelmente foi só uma futilidade passageira, mas eu realmente acho que essa motivação gananciosa negativa ajudou a espantar os usuários, mesmo que num nível inconsciente.

Tendo dissecado todo o lado ruim do Miitomo, quero falar um pouco da parte boa dele, o grande motivo pelo qual eu e muitos outros usuários ficávamos caçando moedinhas: mudar a roupa do mii e tirar fotos tontas com eles era bem legal. Tanto que foi parte do que me inspirou fazer o canal como um todo.

Ainda gosto muito desta piada (um planeta de saia jeans, pra quem não pegou) (sim, eu sei que não foi eu quem inventou esta piada, mas não sei quem a criou originalmente, então não sei quem creditar por ela).

E a Nintendo deve ter percebido isso, pois ela acrescentou o modo Style Central justamente para compartilharmos e votarmos em miis fashion. No fundo, estou na torcida para que ela lance um aplicativo Miifoto ou coisa parecida focado mesmo na parte de ficar vestindo o Mii e tirando fotos tontas, com eventos temáticos e sei lá o que mais.

Já existe um monte de jogo pra celular desse tipo, acho até qua a Nintendo conseguiria fazer um desses melhor, sem ser horrorosamente mercenário. Que um que minha esposa jogou por um tempo, o Cocoppa, era exploratório num nível que faria um político em Brasília querer dar descontos nos impostos dos desenvolvedores. Sério, era assustador.

De qualquer maneira, no final das contas, o Miitomo vai morrer. Mais um experimento social online da Nintendo focado em miis que fracassou, junto com o Miiverse. Mas, ao contrário da rede social do WiiU, que tinha uma premissa boa mas diversos fatores atrapalharam seu desempenho no mercado, o Miitomo partiu de uma premissa ruim. Quando eu escrevi meu texto na época do seu anúncio, eu realmente achei a idéia boa e com muito potencial, mas eu estava sendo otimista demais e agora vejo que tanto eu quanto a Nintendo estávamos completamente errados e não tinha como o Miitomo dar certo.

Porque um aplicativo que transforma conversar com seus amigos em uma obrigação só podia dar errado mesmo.

Enfim, esses foram os motivos que me afastaram do Miitomo e que imagino terem afastado outros usuários também. Mas e você? Chegou a usar (e parar de usar) o Miitomo? Por que você acha que ele fracassou no mercado? Deixe seu comentário aí e…

Até a próxima!

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