22 set

Sobre o meta

Então, hoje vou discorrer sobre um assunto que, por muito tempo, me incomodou e que eu ativamente evitava. Ficava com raiva dele. Todavia, após jogar muito ARMS, Splatoon 2 e, por incrível que pareça, Fire Emblem Heroes, resolvi pesquisar e percebi que boa parte do meu descontentamento vinha da minha ignorância… somada ao comportamento de algumas pessoas online. Agora, acredito entendê-lo melhor e até aprendi a apreciá-lo, mas ainda tenho um certo rancor com gente que o usa de maneira escrota.

Estou falando do metagame, ou metajogo, em português, ou só meta, como muita gente prefere chamar pra economizar duas sílabas. Mais especificamente, quero falar sobre o que aprendi sobre ele e por quê eu o desprezava.

Esta é a transcrição do vídeo de mesmo nome que está no meu canal do YouTube. Vão lá conhecer!

Comecemos definindo de uma maneira mais geral o conceito: metajogo é o jogo que ocorre ao redor do jogo, fora das regras pré-definidas do jogo, mas que afeta diretamente o andar do jogo, normalmente envolvendo os jogadores e a comunidade em torno do jogo. Jogo, jogo, jogo.

Melhor explicar com um exemplo que roubei da wikipedia: xadrez. Existem diversas estratégias para começar uma partida de xadrez, e uma das mais famosas é o pastorzinho. Para quem não conhece, é uma seqüência de jogadas que dá xeque-mate em quatro turnos. Vamos supor, então, que o Fulano adora fazer o pastorzinho, e já ganhou diversas partidas usando ele. Beltrano, por sua vez, esteve observando os jogos do Fulano e percebeu essa predileção. Então, quando foram se enfrentar, Beltrano já estava preparado para defender o pastorzinho do Fulano, e conseguiu contra-atacar sem problemas.

Esse conhecimento do Beltrano quanto à maneira do Fulano jogar é uma informação que não foi conseguida durante o confronto e que não alterou as regras específicas do xadrez (não foi como se os cavalos do Beltrano pudessem se mover em dáblio), mas que afetou o desenrolar da disputa. Esse conhecimento prévio do Beltrano é parte do metajogo dessa partida.

Como fazer o pastorzinho, para quem ficou curioso.

Só de curiosidade, o termo tem origem na política, foi criado para descrever como o jogo político afeta o desenrolar de ações militares e aprovações de leis, entre outras coisas. Exemplo: aprovar uma reforma na câmara seria o jogo, cujas regras envolveriam os deputados lerem o texto e tomarem uma decisão, mas ocorre um metajogo envolvendo a troca de favores políticos entre os partidos para que essa reforma seja aprovada ou não.

Com o conceito básico explicado, podemos falar então do objetivo final do metajogo: elaborar a melhor estratégia para vencer o jogo.

Desde que o mundo é mundo buscamos maneiras de achar a vitória, e o metajogo é a conseqüência natural desse desejo pelo triunfo. É usando as informações e os fatores externos ao jogo que conseguimos nos preparar melhor para o confronto, pois depois que a partida começa, temos que nos virar com o que temos.

É assim que o meta funciona em videogames. Entender as forças e fraquezas de cada personagem, analisar quais armas possuem mais sinergia na hora de se equipar, preparar “planos B” caso encontrar um adversário que possui uma vantagem natural contra você, tudo isso é parte do metajogo.

Todavia, existe um fator muito importante que afeta o meta, principalmente em videogames: popularidade. Saber qual é o personagem, ou o time, ou o baralho mais popular é uma informação importantíssima na hora de elaborar a sua estratégia, pois assim você já tem uma boa noção do que provavelmente vai encontrar pela frente.

Talonflame, Uber Mega Over Tier Plus Plus Xtreme, ou coisa parecida, não conheço o linguajar dos competidores de Pokémon profundamente.

Vamos usar um exemplo de videogames, agora: Pokémon. No início da geração XY, um pokémon que ficou muito popular foi o Talonflame, um pássaro fogo/voador com a habilidade Gale Wings, que permitia seus movimentos tipo voador ganharem prioridade. Com isso, ele conseguia dar ataques muito fortes ou buffar o seu time logo no início da partida, gerando uma vantagem competitiva muito grande. Conseqüência: muitos jogadores começaram a usar o Talonflame nos seus times.

Sabendo disso, o que você, treinador pokémon, acrescenta ao seu time? Alguém pra lidar com os inúmeros Talonflames que provavelmente aparecerão na sua frente. É assim que o meta é afetado pela popularidade.

Mas o mais interessante é o que acontece em seguida, que é o que chamo de “ciclo do meta”.

Funciona assim: o jogo lança, e durante os primeiros dias os jogadores vão se entendendo com ele, até que algum elemento começa a ganhar mais partidas e, conseqüentemente, fica mais popular, seja por causa de uma diferença real de balanceamento no jogo, seja por causa de algum fator externo, como a facilidade de controlá-lo ou o quão inovador ele é.

Em decorrência disso, alguns jogadores começam a elaborar estratégias para contra-atacar esse elemento, diminuindo suas vitórias até o ponto que ele começa a perder sua popularidade, pois derrotá-lo se tornou algo comum. Isso ou o desenvolvedor solta um patch, mas o resultado final é: aquele que antes parecia imbatível deixou de ser.

Foi o que acabou acontecendo com o Talonflame, pois todos os treinadores começaram a ter algum pokémon com golpes pedra exclusivamente para matar o pássaro. Para piorar a situação do coitado, na geração Sun/Moon o Gale Wings foi nerfado, enterrando de vez sua popularidade.

Só que aí algum outro elemento aparece como o novo imbatível, ganhando popularidade e reiniciando o ciclo.

Celesteela, outra Ultimate Turbo Blaster Tier OP Extra de Pokémon.

Assim chegamos naquilo que, para mim, é o ponto mais importante em relação ao ciclo do meta: ele é uma evolução orgânica constante de como o jogo é jogado e um incentivo à criatividade dos jogadores, mantendo a experiência diferente e o jogo vivo na cultura gamer. Em outras palavras, um bom meta consegue estimular a experimentação para que o “imbatível” do dia possa ser derrotado amanhã.

E os desenvolvedores sabem disso. Por isso que muitas vezes eles demoram pra soltar um patch. Eles querem ter certeza se é realmente um problema de balanceamento ou se é só uma questão da comunidade experimentar mais um pouco. Se eles concluem que realmente há um problema, eles corrigem, senão eles deixam quieto, confiando na criatividade dos jogadores. E muitas vezes os patches buscam dar uma nova vida a elementos menos populares, em grande parte para agradar os fãs desses esquecidos, mas também para aumentar o arsenal disponível para os jogadores enfrentarem qualquer “imbatível”.

Quando eu entendi esse aspecto da constante mutabilidade do meta e o incentivo à experimentação que o ciclo cria, eu mudei de idéia e comecei a apreciar mais sua existência.

O que nos traz à seguinte pergunta: por que eu desgostava do meta antes?

Porque antes, eu achava que o meta era um conceito artificial que queria ditar “o jeito certo de jogar o jogo.”

E de onde eu tirei essa idéia?

Da maneira como eu via a palavra sendo usada por muita gente online.

Para algumas pessoas, o meta é um tipo estranho de evangelho, uma série de mandamentos que, se seguidos, os levarão ao nirvana videogamístico, e aqueles que não compartilham dessa doutrina são meros “casuais” que não sabem apreciar a pureza lírica do jogo ou sei lá o que caralho.

Então.

Se tem uma coisa que eu odeio é gente cagando regra elitista pra cima da diversão dos outros. E a maneira como eu via o meta sendo discutido me dava a sensação de que eu estava jogando o jogo errado e que toda santa decisão minha era burra. Conseqüentemente, eu ficava frustrado e infeliz, o que me levou a evitar qualquer discussão que se formasse em torno do meta, de rankings de personagens e etc.

Sim, boa parte desse meu descontentamento veio da minha própria cabeça, fruto das minhas neuras, mas eu acredito que há, sim, uma certa soberba escrota por parte de muitos daqueles que ficam vomitando o meta pra cima dos outros.

Seguinte: eu entendo perfeitamente que existe muita gente competitiva que mergulha de cabeça no meta e fica aperfeiçoando constantemente sua estratégia e se aprofundando nas mecânicas do jogo. Para gente assim, a diversão vem da vitória, o que é perfeitamente compreensível.

Mas, para muitas outras pessoas, a diversão está em poder usar o pokémon favorito, ou conseguir soltar um shoryuken de propósito, ou de só dar umas risadas com seus amigos igualmente inábeis enquanto fazem merda numa partida online. Para estas pessoas, o meta não importa. E isso também é perfeitamente compreensível.

Pode parecer piada, mas a primeira vez que eu consegui soltar um shoryuken de propósito num fliperama, parei pra comemorar. Eu era uma criança muito tonta.

Em outras palavras, nem todo mundo joga videogame com o mesmo objetivo, e temos que parar de ser escrotos com quem joga de maneira diferente. Você entender do meta não te faz um jogador mais “verdadeiro” que os outros. Só te qualifica como um entusiasta mais focado em vencer. O que também não é uma coisa ruim, como já falei.

E, se posso ser sincero, tenho a impressão que muitos dentro desse povinho metido que fica vomitando o meta fica mais copiando o que está na moda do que propriamente analisando e criando novas estratégias, ou seja, eles colaboram mais para a parte do ciclo de todo mundo jogando igual e menos para a parte realmente interessante do meta, que é a resolução de problemas e a sua evolução.

Sem contar que acontece, às vezes, de jogadores adaptarem seu personagem favorito ao meta, usando-o como uma arma secreta e pegando todo mundo de surpresa. A história mais famosa dessas é do treinador Se Jun Park e seu glorioso Pachirisu, campeões do Pokémon World Championship de 2014.

Pachirisu, que era um Unused Shitty Crappy Unimportant Tier mas que foi promovido para o Dragon Slayer Destroyer Absolute God Tier X.

O grande ponto que eu quero fazer aqui é que o metajogo é algo muito interessante, é importante para renovar a experiência do jogo e que bons metas evoluem constantemente, mas ele não dita a “maneira certa de jogar”. Estou falando isso tanto para aqueles que, como eu, se sentiam intimidados pelo meta, quanto para aqueles com um espírito competitivo muito exagerado que ficam forçando o meta pra cima dos outros. Sério, pessoal, joguem da maneira que preferir e respeitem quem quer jogar de outra maneira. Não sejam uns escrotos.

Enfim, isso que eu tinha para dizer sobre o metajogo. E você? Qual a sua opinião sobre o meta? E sobre como os jogadores interagem com ele? Deixe seu comentário aí e…

Até a próxima!

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