31 jul

Sobre o que aprender com um jogo que não quer ensinar

Vocês tiveram que decorar a tabela periódica no colégio? Saber o nome de todos os gases nobres? Qual o número atômico do Bromo, sem ver o logo de Breaking Bad?

No meu caso, não precisei decorar a tabela periódica inteira, ainda bem. Só alguns elementos mais importantes, tipo oxigênio, carbono e o Na. Grande Na. Minha professora até passou algumas frasezinhas para ajudar a lembrar, mas a única coisa que recordo é que ela leu Robson Crusoé francês na cama, e não faço a menor ideia de quais elementos químicos estão nesta frase. A questão é que, após ter saído da escola, achei que nunca mais ia ter que lidar com os elementos da tabela periódica.

Esse foi o caso até eu ter baixado um joguinho mobile chamado Atomas no começo do ano passado.

Texto originalmente publicado no site Sem Tilt em 01/03/2016.

É um puzzle bem simples em que seu objetivo é fundir átomos e criar elementos maiores antes da área do jogo ficar lotada. Para isso, é preciso utilizar bolinhas especiais com o sinal de mais para combinar dois átomos do mesmo elemento adjacentes. Caso os próximos dois elementos sejam iguais eles também serão fundidos e assim sucessivamente, o que cria uma reação em cadeia e dá mais pontos. Existem ainda outras mecânicas, mas o básico é esse.

Puzzles assim, que possuem uma pincelada de estratégia, nos quais você planeja suas jogadas e fica na torcida desesperada que venha a peça certa antes de você perder e, quando ela vem, tudo se encaixa e se resolve e seu score aumenta explosivamente, seguido de uma lágrima solitária de felicidade que desce pelo seu rosto para então recomeçar todo o processo, são muito, mas muito viciantes para mim. Já cheguei até a perder o ônibus de tão absorto que ficava.

Só que não era apenas isso que estava me prendendo ao Atomas. Havia algo mais. Eu achava que, pela primeira vez na minha vida, eu realmente estava aprendendo os elementos químicos.

Que eles aparecem de acordo com seu número atômico. Primeiro o hidrogênio, depois o hélio, o lítio, o berílio, e assim por diante, e eu estava não apenas decorando sua ordem, como seus símbolos também! Até reencontrei meu amigo Na, ou como é popularmente conhecido, o sódio. Grande sódio.

Sim, eu sei que química é algo bem mais complexo que átomos se combinando com bolinhas mágicas com o sinal de mais para formar novos elementos, mas eu estava contente de finalmente estar aprendendo algo que sempre tive dificuldade.

Só que, infelizmente, Atomas não queria ensinar.

Percebi que tinha algo estranho quando finalmente consegui fazer o ouro, número 37 no jogo. Foi rápido demais, e na minha memória o ouro era um elemento mais “alto”, por se assim dizer. Fui pesquisar e, para minha surpresa, o número atômico do ouro é 79. Onde estavam os outros quarenta e dois elementos?

Abri a tabela periódica do mundo real e fui conferindo enquanto jogava, e descobri que Atomas ignorava diversos elementos.

Fiquei profundamente decepcionado. Me senti enganado pelo jogo, como se ele estivesse tirando sarro da minha cara por não ter percebido antes que ele não estava realmente seguindo a tabela periódica. Tanto que o deletei, jogando fora todos os meus recordes.

Atomas poderia ser um grande meio para fazer os jogadores aprenderem sobre os elementos químicos e, quem sabe, até ser usado como um tipo de diversão introdutória à química nas escolas, mas, infelizmente, os desenvolvedores preferiram fazer apenas uma diversão vazia.

O pior, porém, é que eu entendo por que evitaram fazê-lo seguir à risca a tabela periódica. Eles não queriam parecer um jogo educativo, porque jogos educativos têm fama de serem horrendamente chatos, e parecer um pode afetar negativamente suas vendas.

Assim chegamos ao xis da questão: videogames são divertidos e podem ser grandes instrumentos de ensino, mas ninguém gosta de jogos educativos, o que faz com que esse potencial educacional dos games se perca, em grande parte. Mas por que isso aconteceu?

Não tenho uma resposta definitiva para essa pergunta, mas tenho uma hipótese. Os primeiros jogos educativos foram criados por pessoas que não entendiam por que videogames são jogados. A impressão que eu tenho é que algum pedagogo olhou o sucesso de diversos jogos na década de 80 e chegou à conclusão de que “crianças gostam de videogames, logo, se fizer um videogame que eduque, crianças vão aprender mais! Eu sou um gênio.”

Counting Critters, considerado um dos melhores jogos educativos da época, e consiste de ajudar um mascote colorido a contar animais. Super divertido.

Só que esse gênio não parou para ver porque crianças gostam de videogame. A lógica dele era que, ao atrelar a palavra videogame a qualquer coisa, crianças a consumiriam porque videogames são a moda do momento e crianças são idiotas. A qualidade do jogo? Dos gráficos? Dos controles? Quem se importa? O importante é estar escrito videogame na caixa!

Resultado: jogos educativos chatos. Jogos que, ao invés de tentar ensinar através da diversão, colocavam um mini-game qualquer para parecer um videogame e, em seguida, vinham com o conteúdo, virando uma aula qualquer de escola só que com um pouquinho de interatividade e um mascote colorido. Ou em alguns casos, como Rex Ronan do Super NES, o jogo só era ruim mesmo. Muito ruim.

Acontece que crianças não são idiotas. Elas ficaram de saco cheio desses jogos maçantes e largaram eles para voltar a jogar Mario e Alex Kidd.

Se posso dar um exemplo da minha infância, me lembro até hoje de um jogo educativo da TV Colosso de geografia que envolvia clicar em um país, responder uma pergunta genérica em formato de teste e, caso acertasse, aparecia uma animaçãozinha super tosca de algum personagem do programa e eu ganhava um ponto. E só. Não consegui encontrar imagens dessa pérola, pois imagino que tenham erradicado ela da existência, mas eu tenho memórias vívidas desse jogo tamanha a decepção.

Por sorte, depois desse hipotético pedagogo imbecil, outras pessoas mais inteligentes vieram e se deram ao trabalho de tentar entender como videogames funcionam, criando jogos educativos bons, que conseguem divertir e ensinar. Um grande exemplo é a série Onde está Carmen Sandiego?, que me fez superar esse trauma com a TV Colosso e não apenas me divertiu muito como me ensinou coisas como a capital do Nepal ser Kathmandu e que existe uma cidade chamada Bloemfontein na África do Sul (eu juro que escrevi de memória o nome das duas cidades e acertei de primeira, só fui conferir depois na Wikipedia para ter certeza absoluta).

Eu tinha exatamente esta versão, o que me ajudou muito
a aprender inglês também.

Infelizmente, o estrago já tinha sido feito. Até hoje há um preconceito contra jogos educativos, espantando não apenas os jogadores, mas até mesmo desenvolvedores, como no caso de Atomas, e mesmo educadores, pois ainda ouço o discurso de como videogames estão destruindo uma geração e sei lá o que mais.

Todavia, nem tudo está perdido. Desenvolvedores melhores estão criando jogos educativos divertidos, pedagogos e professores que cresceram jogando videogames estão encontrando novos meios usá-los na sala de aula, assim como grandes empresas estão começando a investir mais nisso. Pessoalmente, eu realmente acredito que esse campo de videogames educativos ainda vai crescer muito e ajudar muita gente.

Mas um passo importante é superarmos o preconceito e estarmos dispostos a dar uma nova chance para jogos educativos. Há muito o que aprender através de videogames, seja química com Atomas, história com Assassin’s Creed ou mesmo matemática avançada com Pokémon.

Fórmula matemática que decide a captura de Pokémons, de acordo com a Bulbapedia. Não era uma piada.

Para finalizar e ser justo com Atomas, quando baixei o jogo novamente para escrever este texto, descobri que um novo modo foi adicionado, o Full Alchemist, que possui todos os elementos, na ordem certa e tudo mais. Ainda acho que esse devia ser o modo normal desde o começo, mas fico feliz de ver que os desenvolvedores perderam o medo de educar.

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