05 abr

Sobre notas em avaliações de games

Então, o acontecimento que inspirou este vídeo ocorreu há umas duas semanas, o que equivale a uns vinte e três anos em tempo de internet, mas como eu sempre tive muitas opiniões sobre o assunto, resolvi finalmente fazer um vídeo sobre isso.

E o que foi que aconteceu? Mais uma vez, um crítico de games deu uma nota baixa para um jogo popular e, mais uma vez, um monte de gente foi lá xingar o cara, derrubar o site dele e ameaçá-lo de morte.

Isso não é ok. Isso não devia acontecer. Isso é ridículo. E, infelizmente, isso é muito comum na internet e na cultura gamer.

Existe muito a se dizer e pensar em relação a esta pilha de merda, mas hoje eu queria usar este acontecimento para falar um pouco sobre notas em avaliações de games.

Esta é a transcrição do vídeo de mesmo nome que está no meu canal do YouTube. Vão lá conhecer!

Contextualizando: Jim Sterling, um YouTuber e crítico de games, deu a nota 7 para Zelda: Breath of the Wild. Até então, o jogo vinha recebendo notas altíssimas, com vários 10, e estava no top cinco do Metacritic com o metascore de 98, mas com a nota do Jim ele foi para 97 e assim ele apenas está no top 20. Tem um monte de jogos com a mesma nota, por isso que ele fica passeando pelo ranking.

Conseqüência: um grupo de fãs de Zelda tomou para si o fardo de tentar destruir a vida do crítico por ele não ter gostado tanto assim do jogo. Se você acompanha a cultura gamer, você sabe que esse tipo de reação é muito comum toda vez que um jogo grande recebe uma nota “baixa”.

Muito bem. Acho que não preciso ressaltar que esse tipo de reação é um exagero completamente despropositado, por mais que eu entenda a raiva que dá quando alguém critica algo que gostamos e nos identificamos. O fato do Jim, em particular, cultivar uma persona arrogante e agressiva também não ajudou muito, mas mesmo pessoas mais sossegadas e gentis já foram ameaçadas de morte por conta de notas em reviews.

Existem diversos fatores que levam a essa atitude, como o tribalismo existente na cultura gamer, as bolhas que criamos nas nossas redes sociais que ficam apenas reforçando nossas crenças pré-estabelecidas, o poder do anonimato na internet que nos permite atacar outros sem sofrermos conseqüências e o fato do nosso cérebro burro preferir encontrar justificativas absurdas para alimentar reações exageradas do que simplesmente aceitar uma opinião dissonante, todos assuntos muito interessantes que são abordados freqüentemente pelas internets por pessoas muito mais capazes e inteligentes que eu. Mas existe um aspecto que eu acredito influenciar essa merda toda que não vejo muita gente discutindo: a maneira como lidamos com notas e números.

Antes de continuar, um adendo rápido: não sou professor, educador, pedagogo ou qualquer coisa do gênero, estou apenas expondo minha opinião baseada nas minhas observações pessoais, qualquer correção é bem-vinda.

Tendo dito isto, como meu sobrenome é uma árvore (Oliveira), já posso tentar carreira como um professor de Pokémon.

Com isso fora do caminho, vamos falar sobre notas e números. Imagino que, para a maioria das pessoas, o primeiro contato com notas tenha sido na escola, já que nem todo mundo nasceu na maternidade de nascimentos performáticos, onde diversos juízes avaliam o desempenho da mãe, do médico e do bebê. Para a maioria dos estudantes, notas se tornam um dos principais aspectos da vida, uma sombra nas suas mentes que os persegue e que é tratada como o fator determinante do seu valor para a sociedade. Afinal de contas, ninguém quer ficar de recuperação ou repetir de ano, não é mesmo? Ter que continuar indo na escola enquanto todo mundo está de férias é um pesadelo recorrente meu até hoje. Para reforçar ainda mais o peso das notas, muitos pais criam incentivos ligados à elas, como presentes de natal, compensações financeiras e a permissão para poder sair do porão e tomar sol mais de uma vez por dia, isso quando não criam punições para notas ruins, como não poder encontrar os amigos ou perder o privilégio de sair do porão para tomar sol por algumas semanas.

A questão é que existe outro conceito ligado às notas que distorce um pouco como as enxergamos: a média. Que, no contexto escolar, é a nota mínima para você passar de ano. Ela varia de escola pra escola, mas vou usar o valor que era na minha: 5,0.

Com isso, o modo como eu enxergava cada nota mudou. Qualquer coisa entre 5,0 e 7,9 se tornou, digamos, a minha meta básica, acima disso, era para pedir presente melhor de aniversário ou natal, e abaixo disso significava ou uma bronca ou ter que fazer aulas de reforço, ou seja, ser punido de alguma maneira. Em outras palavras, essa escala de 101 pontos (contando as casas decimais e o zero) se tornou uma escala de três: punição, sobrevivência e recompensa.

E isso guiou como enxergo notas até hoje, como quando vou preencher avaliações de serviço de alguns lugares, em que eu dou um monte de notas 7 por achar que é o mínimo necessário pra eu não causar a demissão de ninguém. Imagino que muita gente trate notas assim também.

Por isso que, toda vez que eu vejo algum estudo em que as pessoas têm que dar uma nota para o próprio desempenho ou aparência e a conclusão chegada é que somos muito confiantes e nos achamos acima da média, eu acho que isso está mais ligado à essa visão de notas que a escola nos dá do que necessariamente nos acharmos competentes e lindos. Se eu fosse me dar uma nota enquanto ser humano, provavelmente me daria um 6,0, que na minha cabeça quer dizer “minimamente agradável” e “capaz de viver em sociedade”, mas matematicamente falando 6,0 quer dizer que eu me considero especial, acima da média, o que não é o caso, em absoluto, eu me acho um cara normal, um cara qualquer. Pensando assim, acho que me dou um 4,5, mas, por causa da visão que a escola me deu para notas, parece que eu estou me comparando com alguém bate em cachorrinho na rua, e eu não bato em cachorrinho na rua! Sério! Eu juro!

Aqui retratado, um animal que não maltrato.

Outro fator que influencia muito como enxergamos notas é que elas vêm de alguém numa posição de superioridade hierárquica: o professor. Professores são uma grande figura de autoridade nessa época da nossa vida, e são eles quem, de certo modo, avaliam nosso valor na sociedade. Por isso, toda vez que alguém dá uma nota a alguma coisa, temos a tendência de achar que tal pessoa está se posicionando como alguém superior, mesmo quando não é o caso.

O que nos traz de volta para às notas dadas para games.

A merda toda acontece assim: primeiro, lança este jogo que gostamos e nos identificamos. Segundo, ele recebe notas boas, e acabamos tratando essas notas como se elas fossem para nós, como se fossem validações do nosso gosto dentro da sociedade, nos dando a mesma sensação positiva de quando ganhávamos uma nota boa na escola. Terceiro, alguém dá uma nota “baixa” para o jogo, e sentimos como se essa nota “baixa” fosse para o nosso gosto, como se essa parte da gente não possuísse valor na sociedade, não muito diferente de quando tirávamos notas ruins na escola. Para piorar essa situação toda, temos nossos parâmetros internos do que é uma nota boa ou ruim, independente de como a matemática realmente funciona. Por isso que transformamos um 7,0, que ainda assim significa “muito bom, acima da média”, em um “bonzinho o suficiente, sem nada de especial”, pois era assim que tratávamos as notas 7,0 na escola. Então, no meio desse mal-estar que sentimos por termos recebido indiretamente uma nota “baixa”, vem uma revolta ligada à impressão de que o crítico está se posicionando acima da gente, como se fosse um professor, e daí vem essa vontade de não só questionar, mas de derrubar a autoridade. De mostrar pra ele que ele não está acima da gente. Afinal de contas, quem é ele pra me dar uma nota, quem morreu e fez desse cara o rei, por que diabos ele está falando que eu não tenho valor pra sociedade?!? Está na hora dele ver quem é que manda nessa porra!

Resultado: Insultos. Ameaças de morte. Contas de twitter hackeadas. E assim por diante.

Em outras palavras, a internet como ela é.

Lógico que no meio disso tudo estão as outras coisas que listei antes: tribalismo, bolhas sociais, anonimato e nosso cérebro burro, mas eu realmente acho que essa, digamos, aura que notas possuem na nossa cabeça, associada à visão distorcida que temos de médias e números, ajudam a alimentar essas reações extremas que algumas pessoas têm quando algo que elas gosta recebe uma nota baixa.

Agora vem um Sermão do Gamer Sensato™: Pessoal, respira fundo antes de cair nesse redemoinho de negatividade e começar a atacar e ameaçar os outros. É muito importante termos em mente alguns fatores que ajudam a reavaliar essa raiva toda. Sim, está na hora de eu listar coisas de novo.

O primeiro fator a se ter em mente é lembrar que a nota é para o jogo, não é para você ou o seu gosto. Sim, eu sei o quanto este jogo significa pra você e para a sua tribo, mas ainda assim, não é pessoal. Entenda que o que você gosta é importante pra você mas não é você. Ok? É difícil entender isso, mesmo eu ainda tenho dificuldade com esse conceito, mas é sério: seres humanos são mais do que só aquilo que eles gostam.

Tendo dito isto, já vi uma análise em que o crítico em questão efetivamente qualificou todos aqueles que gostaram do jogo como imbecis, e nossa, como eu fiquei puto nesse dia. Nesse caso, eu acho que é mais pessoal, pois há uma ofensa e um descaso por parte do bostão. Mas sabem o que eu fiz? Simplesmente parei de acompanhar o trabalho do idiota e toquei minha vida pra frente, foda-se esse caga-regra, quem é ele pra me julgar? Ok, antes disso eu desejei bem forte que ele fosse atropelado na frente da família e morresse sangrando na rua, mas isso não vem ao caso. Sou apenas humano.

Um humano cheio de raiva e ódio, mas ainda assim um humano.

Segundo fator: essas avaliações são majoritariamente subjetivas. Tirando problemas técnicos como bugs que atrapalham a jogabilidade ou assuntos eticamente questionáveis, que são aspectos importantes para o crítico avisar ao consumidor, o resto é tudo a opinião dele. Tem crítico que posiciona suas análises como algo objetivo, mas isso não existe, nosso cérebro possui vieses demais para ser realmente 100% imparcial.

Não estou querendo dizer que “gosto não se discute”, mas sim que opinião não quer dizer verdade absoluta, assim como pessoas diferentes podem ter visões diferentes sobre obras de arte. Portanto, se você discorda da opinião do cara, vá discutir as idéias por trás da opinião dele, vá tentar entender por quê ele pensa assim e tente explicar pra ele por quê você pensa diferente, não vá ameaçá-lo de morte, que isso não resolve nada.

Terceiro fator: lembrem-se de como números funcionam. Como médias funcionam. Sério. Não encare tudo como um pai exigente que quer todas as notas acima de 9,0. 7,0 é bom. É acima da média. A média é 5,0. Relaxa. Quando eu tirava 6,0 em química, que era a minha pior matéria, eu queria estourar champanhe na sala. O que eu quero dizer é: encare jogos como provas de química. 7,0 é um puta notão.

Senão, vamos cair na situação das apurações das escolas de samba. Não sei se vocês sabem, mas a nota mínima é 9,0 nelas. Ou seja, ao invés de ter uma escala indo de zero a dez com números inteiros, temos uma escala idêntica indo de 9,0 até 10, com as casas decimais. Um 9,4, por exemplo, é o mesmo que um 4,0. Eu acho isso muito tonto, mas, ao mesmo tempo, acho que entendo por quê eles chegaram nessa contagem.

A meu ver, eles querem dar esse nove como um reconhecimento pelo trabalho duro que todo mundo teve no desfile. O nove é um prêmio de consolação, de certo modo, uma maneira de dizer que todo mundo foi super bem e fez um desfile fantástico mas que, para diferenciar a alta qualidade de todo mundo, é preciso quebrar a nota depois do 9. Imagino que isso tenha sido inventado para evitar muita briga, algo que claramente não deu certo, já que todo ano tem alguma notícia nova de confusão acontecendo em alguma apuração de escolas de samba.

Falando nisso, chegamos ao quarto fator: ao contrário do carnaval, a qualidade dos games que jogamos não é um campeonato. Se o jogo que você gosta tiver a melhor nota no Metacritic do ano, você não vai ganhar um troféu. Quero dizer, a não ser que você faça uma aposta com alguém, mas em via de regra essas notas não fazem parte de uma competição. Sério. Eu entendo perfeitamente você ficar torcendo para uma empresa fazer sucesso e assim ela poder continuar fazendo os jogos que você gosta, mas entenda que no esquema geral das coisas, não há um prêmio no final pra você. Isso que sou eu falando, um fã bitolado da Nintendo que quer jogar Fire Emblems novos até morrer.

Sim, algumas franquias morrem por causa de avaliações negativas, e algumas produtoras escrotas ligam o salário dos desenvolvedores às notas do Metacritic, mas esses são problemas relacionados às empresas envolvidas, não são uma questão pessoal para você, o fã. Não precisa levar essas notas tão a sério.

Não é ele quem manda.

Por fim, o quinto e último fator é o seguinte: o crítico não é uma autoridade sobre o seu gosto. Eu acredito que o trabalho de um crítico é importante tanto para nos guiar enquanto consumidores quanto para nos fazer refletir sobre o valor artístico e cultural de uma obra, e muitos deles são, realmente, experts, pessoas que estudaram muito mais sobre o meio e que possuem um repertório muito mais vasto que a maioria dos fãs. Mas a opinião deles não é uma imposição à sua. Eles não estão te ameaçando, ou querendo te forçar a pensar igual. Como falei antes, é só a opinião deles. Portanto, lembre-se que eles não são professores passando a correção da prova na lousa, com a resposta ideal sobre o que pensar sobre o jogo, eles não são uma figura de autoridade. Eles podem até ser experts, mas não são eles que definem o que é certo achar sobre um jogo.

Da próxima vez que algum crítico discordar da sua opinião, antes de bancar um escroto, respire fundo e pense nisso tudo que falei. Não vale a pena se desgastar desse jeito só por isso.

Enfim, chega de sermão. Este vídeo ficou bem maior do que eu esperava. Mas e você? O que pensa dessa minha visão sobre como a percepção de notas e números é distorcida pela escola? Você gosta de notas em avaliações de games, ou prefere aquelas que são só o texto? Qual o seu quesito favorito das avaliações das escolas de samba? Deixe seu comentário aí e…

Até a próxima!

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