05 jan

Sobre Os Melhores Games Que (Quase) Ninguém Jogou™ 2016, Parte 5 (vídeo)

Esta é a transcrição do vídeo de mesmo nome que está no meu canal do YouTube. Vão lá conhecer!

Então, finalmente chegamos no último d’Os Melhores Games Que (Quase) Ninguém Jogou™ 2016! Aleluia!

Chega de enrolar! Sem mais delongas, aqui está o último e o mais especial d’Os Melhores Games Que (Quase) Ninguém Jogou™ 2016:

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Criado pela Game Freak (sim, aquela Game Freak), este jogo de 3DS é uma mistura de paciência com corrida de jockey e é do gigantesco caralho. De cavalo. Puta que pariu, como eu gostei deste jogo. Ele veio de lugar nenhum, com uma premissa ridícula, e me pegou de surpresa. Sim, eu sei que a desenvolvedora tem pedigree, mas é um jogo de paciência com corridas de cavalo. Falando assim, não dá pra pôr muita fé, né?

Só que funciona. Sério. É a mistura de duas coisas, convenhamos, meio entediantes, mas o resultado é tremendamente divertido. E excitante. E viciante. E é o por que de eu estar premiando-o como um d’Os Melhores Games Que (Quase) Ninguém Jogou™ 2016.

As corridas de Pocket Card Jockey funcionam alternando fases em que jogamos partidas rápidas de paciência com fases em que posicionamos nosso cavalo na pista administrando sua stamina e desviando dos demais corredores, culminando na arrancada final, em que controlamos o cavalo para passar pelos demais e gastamos toda a energia acumulada durante a corrida.

As partes de paciência consistem de uma versão bem simplificada do jogo de baralho, mais até que o Klondike presente nas versões antigas de Windows. Em Pocket Card Jockey, temos diversas cartas dispostas com a face para cima na mesa em fileiras verticais e temos uma pilha de onde tiramos novas cartas. A idéia é revelar a primeira carta da pilha e continuar a seqüência numérica dela com as cartas do topo de cada fileira na mesa. Podemos ir tanto em ordem crescente quanto decrescente, e podemos mudar a ordem durante a jogada. Ah, e os naipes não importam, tanto que eles nem aparecem nas cartas.

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Sim, a paciência do Windows tem nome! Klondike!
Também fiquei surpreso quando descobri.

Dependendo se conseguimos limpar a mesa, de quanto tempo demoramos, dos tamanhos das seqüências que fazemos e se cometemos algum erro, tipo clicar numa carta que não entra na seqüência, a stamina e o humor do nosso cavalo variam para a fase de posicionamento. Quanto mais stamina, mais podemos movê-lo pela pista e quanto melhor o humor dele, menos stamina ele gasta.

Só que não podemos simplesmente jogar nosso cavalo lá pra frente, pois isso gasta muita energia, podendo deixá-lo sem fôlego na arrancada final. O ideal é encontrar uma posição em que ele fique confortável, sem se cansar demais mas sem ficar muito pra trás. E, dependendo de onde o deixamos, a dificuldade da próxima partida de paciência varia. Quanto mais confortável para o cavalo a posição, mais difícil a paciência.

Para mim, a maneira como cada fase influencia a seguinte foi implementada de maneira brilhante. Funcionou muito, muito bem, e criou um jogo em que você está sempre tenso, com a vitória ao seu alcance, pois uma partida ruim de paciência pode ser compensada nas próximas, principalmente se você está disposto a se arriscar durante a fase de posicionamento. E, quando você ganha a arrancada final por uma cabeça, o rush de adrenalina, a sensação de conquista é algo… inacreditavelmente satisfatório.

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Sim, este cavalo tem um gato no lugar do rabo. Sim, este jogo é maravilhoso.

Mas o aspecto mais interessante dessas fases é que a maneira como elas lidam com o tempo foi invertida.

Pensem comigo: estamos falando de um jogo chamado Paciência. Um jogo que precisa de paciência. Em que paramos, estudamos e pensamos nossas jogadas com paciência.

Todavia, como Pocket Card Jockey possui um relógio tiquetaqueando em contagem regressiva, temos que pensar rápido para resolver cada partida da maneira mais ligeira que conseguimos. Não há tempo para paciência e reflexão, apenas para pressa e reflexos rápidos. Tanto que é por isso que é essa versão simplificada do jogo de cartas, pois assim tudo fica mais ágil e focado.

E aí temos as fases de posicionamento que, em última instância, são as parte que representam a corrida propriamente dita, em que ficamos movendo nosso personagem pela pista para ganhar vantagem.

Corridas, em videogames, normalmente são alucinantes, requerindo reflexos rápidos e a leitura constante dos demais competidores para agirmos instantaneamente e assim ficarmos à frente e conquistarmos a vitória.

Só que em Pocket Card Jockey as fases de posicionamento não são assim. Nós podemos demorar o tempo que precisarmos traçando diferentes rotas para nosso cavalo, avaliando se queremos arriscar mais na próxima partida de paciência ou se queremos ir na manha, administrando nossa stamina. É a parte mais estratégica do jogo. Pode-se dizer que esta é a parte mais paciente do jogo.

Enfim, essa invertida acabou deixando os dois jogos mais divertidos, e tudo se liga de maneira a criar um game fantástico. Mas isso não é tudo.

Porque, como se não bastasse, a Game Freak veio e acrescentou um pouco daquilo que ela é especialista em fazer: a criação e procriação de criaturas virtuais.

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É o amoooooooooor…

Os cavalos que você usa nas corridas começam jovens, e vão ganhando experiência e ficando mais fortes até o momento que atingem a maturidade, quando páram de evoluir, mas podem continuar correndo. Para manter um propósito neles, certas corridas só podem ser disputadas com cavalos mais experientes. Mas, eventualmente, a carreira da sua montaria termina e o animal é enviado para o melhor tipo de aposentadoria que existe.

Estou falando de sexo.

Você pode cruzar os seus cavalos e éguas aposentados para criar novos potros, mais fortes, e assim disputar corridas com eles, criando um ciclo em que você está constantemente juntando e procriando animais melhores para poder disputar e ganhar corridas mais prestigiadas e difíceis. Como cada cavalo também tem uma especialidade, alguns em corridas mais longas, outros em mais curtas, é preciso pensar bem na hora de formar os casais para assim fazer um novo campeão. Ah, e respondendo a pergunta na mente de todos vocês, se você cria um casal incestuoso o potro sai com status ruins, mas que pouca vergonha, onde já se viu? Ainda bem que a Game Freak previu essa mente poluída que eu, quero dizer, vocês têm. Não eu.

Ou seja, essa mecânica de evoluir os cavalos para a geração seguinte ficar mais forte e assim por diante deixa o jogo ainda mais viciante, pois para ganhar algumas das corridas mais difíceis, só se você tiver um cavalo muito, mas muito forte. Que nem acontece em corridas de cavalo de verdade. Acho. Sei lá, nunca assisti nenhuma corrida de jóquei de verdade.

Só que ainda tem mais uma coisa para completar a magnificência dessa obra prima videogamística: sua história.

Sim! Este jogo tem uma história! Ou melhor, várias!

Existe a história principal, sobre o personagem do jogador, um rapaz ou uma garota que sempre sonhou em ser um jóquei, mas que nunca sequer aprendeu a montar um cavalo. Mais ou menos que nem o Ash sempre quis ser um mestre Pokémon mas nem sabia que precisava enfraquecer um pokémon para capturá-lo. Só que após um acidente na primeira corrida, ele ou ela ganha o poder de jogar paciência num plano transcendental para assim influenciar o desempenho do cavalo.

Sim! Eles encontraram uma justificativa diegética para a paciência! E como ela afeta a corrida! E É UMA EXPLICAÇÃO COMPLETAMENTE TONTA! NÃO É MARAVILHOSO?

Depois disso a história continua com o seu rival tentando desvendar o segredo por trás da sua habilidade. É magnífico. E muito tonto. E, como já falei no vídeo sobre Tokyo Mirage Sessions #FE, eu adoro uma história tonta que não se leva a sério.

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O Sr. Blingman, um dos seus clientes. Acho que mesmo se ele fosse usado em outro jogo, sem nenhuma relação com cavalos, este personagem ainda assim teria um haras. Olha a cara dele, é muito alguém que tem cavalos.

Mas essa não é a única história no jogo. Existem as histórias sobre os donos dos cavalos. Que você só é o jóquei, os cavalos possuem donos que querem ver seus animais se tornando campeões, e se você não atinge as expectativas deles, eles podem tirar o cavalo de você. Entretanto, se o seu desempenho é satisfatório, acontecem pequenas conversas entre o jóquei e os donos em que conhecemos mais sobre a vida deles. E são historinhas muito interessantes. Algumas são mais comédia enquanto que outras são numa linha mais de subverter suas expectativas sobre o personagem em questão, e eu, pessoalmente, gostei delas. Assim, guardadas as devidas proporções, não vão jogar esperando encontrar um Machado de Assis, mas para um jogo que mistura paciência com corrida de jóquei, a qualidade dessas historinhas surpreende.

Resumindo: este jogo soube criar uma jogabilidade muito legal que mistura duas coisas completamente díspares, possui todo um lado de criar e procriar bichinhos virtuais e ainda por cima tem uma história divertida. Eu adoro este jogo.

Mas aqui entra a pergunta: se Pocket Card Jockey é uma obra-prima tão espetacularmente extraordinária assim, porque quase ninguém a jogou?

Acho que um dos principais motivos é porque é um jogo cuja premissa é uma mistura de paciência com corrida de cavalo. Imagino que muitos não tenham posto a menor fé de que isso poderia dar um jogo bom, e por isso o ignoraram. O fator “apenas para o eShop do 3DS” deve ter pesado um pouco também.

Mas acreditem em mim: este jogo funciona. E é bom pra caralho. De cavalo. E vale a pena. Vão jogar este jogo. Eu separei ele por último justamente por acreditar que ele, especificamente, vai conquistar mais pessoas do que todos os outros. É um jogo que eu acho que todos deveriam dar uma chance. E, como a game Freak anunciou que vai fazer uma versão pra celular, vai ficar ainda mais fácil pra todo mundo. Ele só não é o melhor jogo do ano pra mim porque Fire Emblem Fates, mas ainda assim foi uma disputa acirrada. Por isso, é com muito orgulho e muita vontade de mandar todos vocês jogarem este jogo que eu premio Pocket Card Jockey como um d’Os Melhores Games Que (Quase) Ninguém Jogou™ 2016.

Agora vão lá jogar o jogo.

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