14 jun

Sobre a conferência da Microsoft na E3 2016 (ou O futuro dos consoles segundo a Microsoft parte II)

Continuando minhas análises das conferências da E3, vamos para a da Microsoft.

Teve alguns jogos interessantes, como o We Happy Few (qualquer coisa com uma vibe Admirável Mundo Novo me atrai, é um dos meus livros favoritos) e o Scalebound (mistura de Devil May Cry com Monster Hunter? E cheio da tontice Platinum de ser? Gostei), assim como eu tenho que comentar que uma das grandes novidades da Xbox Live, os Clubs, são basicamente as comunidades do orkut (lê-se ôr-cú-tchí, para quem não lembra), mas o principal assunto da conferência foi a continuação da unificação toda do Windows 10 com o Xbox, com a iniciativa Play Anywhere. E é o assunto que eu quero comentar agora.

Jogue onde quiser (naquelas)

Para quem não viu, o Play Anywhere é, em linhas gerais, a unificação da plataforma Xbox com a Windows 10.

Não, não é a realização do sonho molhado do Steve Ballmer de trazer Office para o Xbox, ele não é mais o CEO da Microsoft e não influencia mais tanto assim a empresa. A idéia por trás do Play Anywhere é similar ao que acontece no iOS, em que você compra um jogo para uma plataforma e “ganha” automaticamente a versão para outra. Comprou um jogo no seu iPhone, você pode baixar ele também no seu iPad, ou no caso da Microsoft, comprou um jogo no seu Xbox One, você pode baixar ele também no seu PC com Windows 10. Esse conceito é chamado, em inglês, de cross-buy. Estou com preguiça de correr atrás da tradução em português.

Outro elemento que Microsoft também vai implementar é cross-play. Não, não estou falando de cosplays gender benders, mas de você jogar multiplayers online entre várias plataformas diferentes. Um exemplo bom foi o que eles mostraram com Minecraft, onde alguns estavam em PCs, outros em tablets, pelo menos um cara num Xbox One e sei lá por que diabos o John Carmack com um Oculus Rift (sério, que caralho foi isso?).

A terceira parte dessa iniciativa é a questão dos cloud saves, ou seja, dos jogos manterem seus saves online, na nuvem, e assim ser possível começar um game em uma plataforma e continuar de onde parou em outra. Muitos jogos de iOS fazem isso, assim como alguns de Vita/PS3/PS4. Na versão Microsoft, você poderia começar um jogo no Xbox One e continuar depois no PC com Windows 10, eles compartilham o seu save.

Quem assistiu a conferência deve ter percebido que quase todo santo jogo anunciado vinha com a frase “exclusivo para Xbox e Windows 10” no começo, era por causa dessa questão toda do Play Anywhere, era a Microsoft reforçando a idéia.

Muito bem, existem diferentes aspectos para serem analisados nessa coisa toda, então eu vou por partes.

Instala logo a porra do Windows 10

Não tem como negar, uma grande motivação da Microsoft por trás dessa iniciativa é querer que aumentar a penetração (hihihi) do Windows 10 no mercado. Ele não está indo tão bem assim, muita gente está resistente a fazer o upgrade, e isso atrapalha os planos da Microsoft. Segmentação de mercado, no caso de sistemas operacionais, não é uma coisa muito boa, atrapalha a produção e a venda de softwares para eles. É um problema que o Google passa com o Android também.

Então, qual a solução encontrada? Ficar enchendo o saco com pop-ups a porra do tempo inteiro enchendo o saco para as pessoas fazerem o upgrade. Eu, que sou usuário Mac, estou sabendo da pentelhação que são essas janelinhas perguntando se você quer o Windows 10, já ouvi as histórias por aí. Por enquanto, não foi a solução ideal.

windows10-popup

Isto é uma imagem aqui no blog, não é o popup em si, não adianta clicar no xiszinho.

Qual a segunda solução encontrada? Tentar aumentar o appeal do Windows 10, e games exclusivos para a plataforma é um deles. Este é o propósito de se criar games exclusivos, dar apenas uma opção para o consumidor que quer jogar tal jogo, forçando-o a comprar a plataforma necessária (ou viver sem jogar o jogo, mas para muita gente essa opção não existe) (vide o cara que comprou um PS3 só pra jogar Tales) (eu). Só que, neste caso, a Microsoft está criando uma situação onde ela ganha não importa o que o consumidor faça, pois ou ele joga no Windows 10 ou ele joga no Xbox One. Não quer o console? Jogue no PC, com o nosso sistema operacional, na versão que queremos que você use. Não quer o Windows 10? Jogue no Xbox One, nosso console, que agora vem em várias versões.

E depois instale a porra do Windows 10 logo de uma vez, você não quer se livrar desse pop up chato?

Qual a razão de ser do Xbox?

Estou fazendo essa pergunta de maneira retórica, não pretendo respondê-la agora, mas ela tem sido levantada bastante com essa unificação do console com o PC que a Microsoft está realizando.

Quem pergunta isso está, na prática, perguntando “Por que vou comprar um Xbox One se posso jogar no PC?”, o que, por sua vez, é uma maneira de dizer “Se não há exclusivos no Xbox, ele é um produto inútil.”

Muito bem. Eu, pessoalmente, discordo dessa maneira de pensar, por um motivo muito simples: para muita gente, um console plugado na TV é uma coisa e o PC é outra. Seja a pessoa que passa o dia inteiro trabalhando na frente de um computador e quer ficar num sofá na frente da TV quando chega em casa, seja a família que só tem um PC e ter um console é uma maneira de uma parte dela se divertir na TV enquanto outra usa o PC. São máquinas diferentes com funções diferentes, pelo menos para muita gente.

A impressão que eu tenho é que quem levanta essa pergunta é o gamer mais dedicado, cujo objetivo mais importante é ter a melhor experiência possível com um game, dentro de parâmetros dentro de sua cabeça. Segundo esses parâmetros, um PC 99% das vezes vai ser melhor que um console por conta da sua versatilidade e sua constante evolução, e por isso esse tipo de gamer dedicado não vê o propósito da existência do Xbox se todos os seus jogos estarão disponíveis também no PC.

pc-master-race

O mesmo tipo de gamer que usa a expressão “PC gaming master race” de maneira séria. Se você for um desses, pare com isso. Por favor.

Ou seja, do modo como enxergo as coisas, o Xbox ainda tem um propósito de existir, pelo menos a curto e médio prazo. Pode ser que, daqui a uns dez, vinte anos, as pessoas parem de distinguir tanto assim o PC da TV, e consoles deixem de existir, mas para o futuro imediato, consoles ainda vão continuar existindo.

Sem contar que, para a Microsoft, não importa, porque você ou vai estar no Xbox ou num PC com Windows 10, o que faz com que a pergunta “Qual a razão de ser do Xbox?” deixe de ser retórica e a resposta definitiva seja “Dar lucro para a Microsoft.”

O consumidor (dependendo do ponto de vista) sai ganhando

Aqui está a parte em que eu caio como um patinho no marketing e falo do lado bom disso tudo. Mas eu realmente acho que há um lado bom para o consumidor.

Que é o aumento (dependendo do ponto de vista) das opções disponíveis para ele jogar o que quiser.

E, no fundo, isso é bom.

Quer jogar no PC? Vá em frente. No console? Divirta-se? Nos dois? Melhor ainda, pois agora você pode jogar o mesmo jogo, com o mesmo save, nas duas máquinas. E pagando só uma vez por isso.

Por mais que seja fácil ter uma visão cínica disso tudo e ficar apenas apontando os interesses da Microsoft por trás do Play Anywhere, eu realmente acho que ele traz uma vantagem para os gamers no final das contas. E o que me faz dizer isso é o fato de eu ser primariamente um gamer Nintendo.

Que eu não agüento mais ter que comprar Super Mario World toda vez que a Nintendo lança uma porra de um hardware novo.

É uma bosta.

Comprei pro GBA, pro Wii e pro WiiU. Não comprei pro 3DS porque só roda no New 3DS, mas a questão é: é um saco ter que comprar o mesmo jogo quinhentas vezes. Principalmente agora que eles são digitais, é tão difícil assim transportar minha compra para a máquina nova? Parece que as coisas estão mudando, principalmente com o novo sistema de contas do Nintendo Account, mas não duvido que eu vá ter que comprar Mario World para o NX de novo.

mario-world-boxart

A única versão que eu nunca tive. Sim, eu sou uma vergonha.

Por isso que quando a Microsoft anunciou o cross-buy entre PC e Xbox, minha primeira reação foi “VIU, NINTENDO, ELES ESTÃO FAZENDO DIREITO, PORRA!”

Sem contar que se desse para eu manter meu save de um jogo (qualquer jogo) entre o 3DS e o WiiU eu ia me animar muito mais para comprar certos jogos do Virtual Console (estou falando dos Fire Emblems).

Então, me desculpem, por mais que sim, existam diversos motivos gananciosos e capitalistas por trás do Play Anywhere, eu acho que a vantagem que ele traz para o consumidor é uma coisa muito boa. Mais opções e mais versatilidade. Isso é bom.

Dependendo do ponto de vista.

Agora eu explico essa ressalva que eu fiquei fazendo.

Seguinte: PCs são máquinas mais abertas que consoles. Não apenas no sentido do hardware, mas do software também. Qualquer um pode fazer o programa que bem entender para um computador e vendê-lo sem problemas e sem precisar da autorização de ninguém. Em consoles, é preciso passar pelo crivo da vendedora do hardware antes de oferecer um game para os consumidores (ou ensiná-los a hackear a máquina, mas isso é outra história).

Com isso em mente, há uma maneira da Microsoft limitar, ao invés de ampliar, as opções do consumidor com o Play Anywhere, que é ela só dar o cross-buy e o cross-play para jogos comprados pela sua loja oficial, ignorando os usuários da Steam ou mesmo quem comprar direto no site do desenvolvedor. Se a Microsoft quiser (e provavelmente ela quer), o Play Anywhere é um benefício de entrar no seu ecossistema, e não uma funcionalidade para qualquer um com um PC.

Em outras palavras, ficaria como funciona em Macs, com a App Store oficial da Apple e coisa e tal. No fundo, como usuário mac, estou admitindo que a Apple limita minhas opções com sua loja fechada. Mas é uma escolha consciente minha, eu compro a idéia do “jardim murado” da Apple por acreditar que assim consigo um padrão de segurança para o meu computador e um mínimo de controle de qualidade (naquelas).

Por isso estou falando que “depende do ponto de vista”. Para alguns, o Play Anywhere pode ser usado como uma maneira desleal da Microsoft forçar as pessoas a ficarem presas no seu ecossistema. Para outros, é apenas uma vantagem que a Microsoft está oferecendo para diferenciar a sua loja da App Store, da Steam, do GoG e outros.

Eu não tenho uma resposta definitiva para essa questão. Por enquanto, estou pendendo para o time “é só uma opção”, mas entendo o contra-argumento e, dependendo de como a Microsoft implementar a coisa toda, posso facilmente mudar de opinião.

Acho que vamos ter que esperar pra ver.

Conclusão

A conferência me mostrou que Microsoft veio para esta E3 disposta a mudar o jogo. Não apenas introduzindo novos Xboxes, mas com uma postura diferente em relação aos games. O que importa agora é que você jogue em uma plataforma Microsoft, seja o Xbox One, seja o Windows 10.

Para isso, ela está, aos poucos, sumindo com a linha que separa os consoles dos PCs. Os próprios novos hardwares apresentados fazem parte dessa proposta de aproximar o console do PC, como já discuti antes. Mas a principal iniciativa para esse objetivo é o Play Anywhere. Se ele é uma coisa boa ou ruim, acho que depende do ponto de vista, mas do meu é uma coisa boa.

Que sério, não agüento mais ficar comprando Mario World. Resolve logo isso, Nintendo!

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