04 nov

Sobre Miitomo e a Nintendo nintendando o mercado mobile

Muito bem.

Eu sei que o nome deste blog é “Blog do Gamer Sensato”, que eu me auto-intitulo como o “Gamer Sensato” e que a proposta da coisa toda é elaborar dissertações equânimes sobre videogames e me esforçar para ver todos os lados de todas as questões, tanto os bons quanto os ruins e etc e tal.

Mas hoje eu estou a fim de pôr os meus óculos com lentes cor-de-rosa de fã bitolado da Nintendo e saltitar pelas ruas jogando pétalas de tulipas e cantando aos quatro ventos como a Nintendo é perfeita e nunca faz nada de errado, tanto que esse era o título original deste post, “Sobre a Nintendo Ser Perfeita e Nunca Fazer Nada de Errado”.

Porque, por incrível que pareça, eu realmente gostei do Miitomo.

O primeiro app da Nintendo para smartphones

Não sei o quanto vocês cinco acompanham o universo videogamístico ou, mais especificamente, a bolha nintendística, então vou explicar tudo desde o começo.

No dia 29 de outubro de 2015 (29 no Japão, aqui ainda era 28) (espero que vocês cinco conheçam o conceito de fuso horário), a Nintendo revelou no seu encontro trimestral com investidores seu primeiro “game” para smartphones: Miitomo.

O que é Miitomo? Para começo de conversa, ele não é exatamente um game, mas sim um aplicativo de comunicação, algo mais próximo de um WhatsApp do que de um Super Mario Galaxy. Nele, você cria o seu Mii e bate um papo com ele, respondendo perguntas como “qual o seu hobby favorito” (azul de seda), “qual o sua comida favorita” (muita) e “qual o seu personagem favorito dos fillers do animê de Dragon Ball Z” (a instrutora de direção do Piccolo, obviamente).

Instrutora de direção do Piccolo

Acho que eu gosto dela porque ela teria sido melhor que o instrutor que eu tive pra tirar carta.

A partir disso, (pelo que eu entendi) seu Mii vai visitar os Miis dos seus amigos (imagino que seja online, e que ele busque isso a partir de listas de amigos pré-existentes, como o Facebook) e bater papos com essas informações e, assim, quem sabe, ajudá-los a ter uma conversa diferente.

Melhor dar um exemplo: lá está você com o seu Miitomo, quando seu Mii aparece com a informação que o personagem favorito de Cem Anos de Solidão do Bernardo do almoxarifado é o José Arcádio, o que muito te surpreende, pois ele tem esse ar de fã do Arcadio. Você comenta isso com ele (usando o próprio Miitomo, como se fosse um aplicativo de chat), acrescentando que seu personagem favorito é o José Arcadio Buendía. Ele responde (ainda pelo Miitomo) que, de fato, por muito tempo, o personagem favorito dele era o Arcadio, mas que na quarta releitura do livro ele veio a se afeiçoar mais com o José Arcádio, e complementa em seguida que, se fosse tentar adivinhar qual era o seu personagem favorito, ele chutaria o José Arcadio Segundo, e não o José Arcadio Buendía. Você replica então que José Arcadio Segundo realmente é um grande personagem, mas que o fato do seu avô ter sido um alquimista que fundou uma vila no interior faz com que José Arcadio Buendía te lembre dele, transformando-o no seu personagem favorito. Depois disso, a conversa evolui (ainda pelo Miitomo) para como nenhum de você dois gosta muito do José Arcadio e quais cosplays vocês vão usar na MaCONdo Verão 2016, a convenção semestral dos fãs de Cem Anos de Solidão.

Deu para entender como funciona? A premissa é você descobrir mais sobre seus amigos e colegas e assim aprofundar a amizade ou, pelo menos, gerar conversas novas e interessantes.

O Miitomo está tentando ser um WhatsApp? Um Facebook? Um Twitter? Não, ou pelo menos eu acho que não. Ele quer ser um complemento à essas redes, um aplicativo secundário que você usa para dialogar sobre assuntos-não-cotidianos com seus amigos. Tendo dito isto, imagino que é possível também usá-lo como seu aplicativo principal de chat – neste caso, ele substituiria sim o WhatsApp, mas ainda acho que não é bem esse o objetivo.

Ele será grátis, mas com microtransactions na forma de roupinhas para seus Miis. A Nintendo afirmou que teriam alguns outros aspectos mais “game”, mas não revelou nada ainda.

Exemplo de roupinha para os Miis.

Considerando as roupinhas que saem para Smash Bros, Miitomo tem muito potencial.

À primeira vista, talvez pareça uma coisa nada de mais, e é o que muito imbecil analista e o que muito panaca com dinheiro  investidor pensou sobre Miitomo (tanto que as ações da Nintendo caíram cerca de 15% desde o anúncio). Acho que mesmo muitos fãs da Nintendo e gamers em geral não gostaram da premissa de Miitomo.

E, sendo bem sincero, assim que vi no live-blog do Wall Street Journal (porque é óbvio que eu estava acompanhando o encontro dos investidores num live-blog) a descrição do aplicativo, também fiquei meio desconfiado, sem entender direito seu propósito.

Mas, depois de refletir um pouco e ler trocentas análises sobre o app (vejam a sessão de links), eu entendi melhor o potencial dele e o que a Nintendo está fazendo.

Ela está nintendando os games e aplicativos de smartphones.

Nintendando nintendices nintendísticas

Eu não sei como escrever isto de outra maneira, então aqui vai: não faz o menor sentido uma empresa pegar seus produtos e lançá-los para um novo mercado do mesmo jeito que ela lança para o velho mercado.

Se eu fabrico cuecas e quero conquistar o mercado feminino, eu não lanço uma cueca rosa, eu lanço uma porra duma calcinha.

Se eu fabrico computadores e quero lançar um celular, eu não lanço um mini-laptop com versões porcaria dos softwares, eu lanço a porra do iPhone.

Logo, se eu fabrico games para aparelhos dedicados e quero entrar no mercado de games mobile, eu não simplesmente lanço os jogos de Mario ou Zelda que já existem com controles meia-boca adaptados de qualquer jeito, eu planejo e estudo como as pessoas usam seus aparelhos celulares para aí sim lançar um aplicativo.

E isso é que Miitomo é.

O resultado de diversas cabeças na Nintendo pensando e estudando como as pessoas (japonesas, mais especificamente) usam seus celulares, buscando em seguida uma maneira de criar uma nova diversão com algo que elas já têm, e não o contrário, que é o que todo mundo espera que a Nintendo faça: pegar o que já existe e colocar à venda sem nenhum respeito nem pelos jogadores, nem pelo jogo em si.

Tá achando o quê? Que a Nintendo é a Square Enix? NÃO!

É isso que a Nintendo busca fazer (na maior parte do tempo, ela tem umas recaídas com alguns jogos que claramente existem só para gerar uma grana rápida, mas no geral ela se esforça): encontrar a melhor união entre software e hardware para criar a melhor e mais divertida experiência para os jogadores.

Ela sempre acerta? Não, ninguém acerta sempre. E eu também não sei se Miitomo vai dar certo, pode ser que o público não compre a idéia e prefira usar o WhatsApp para conversar sobre qual a sua cientista mulher favorita que não é a Marie Curie (a minha é a Ada Lovelace, mas até aí, trabalho com programação) (apesar de eu gostar bastante da Annie Jump Cannon, que catalogou praticamente TODAS as estrelas).

Mas a Nintendo está tentando do jeito certo: pensando na experiência do consumidor.

É por isso que estou aqui jogando essas pétalas de tulipas textuais para vocês e é por isso que eu me irrito profundamente com esses néscios endinheirados investidores e esses descerebrados que representam tudo que há de errado no capitalismo analistas financeiros que querem porque querem que a Nintendo aperte o botão do foda-se e cague todos os jogos dela nos consumidores mobile.

Não. Errado. Vão tomar no cu.

Pode não ser o caminho mais fácil, pode não ser o caminho mais lucrativo a curto prazo e pode muito bem ser o pior caminho, levando a mais prejuízo.

Mas é o caminho Nintendo.

E eu, como fã bitolado da empresa que sou, estou muito contente de ver ela seguindo esse caminho.

Conclusão

Eu pretendia trabalhar neste texto idéias que tenho para Miitomo, mas percebi que posso deixar isso para depois, pois existem duas idéias centrais aqui que estou querendo deixar com vocês:

Primeiro: Miitomo não existe num vácuo. Ele não veio de lugar nenhum, ele não foi criado para ser um clone do WhatsApp com Miis, e ele tem um público e um objetivo em mente. Pode não parecer, mas a Nintendo criou Miitomo com todo o cuidado do mundo, e existe um motivo do porquê ele ser o primeiro aplicativo lançado pela empresa para mobile, que é justamente mostrar para as pessoas que não estão habituadas com jogos que a Nintendo pode criar uma experiência divertida no celular (e assim atraí-las para os jogos e consoles Nintendo). Ele é o resultado da Nintendo fazendo aquilo que ela se esforça em fazer: o casamento entre software e hardware para criar uma experiência divertida nova e única.

Segundo: os jogos mobile de Mario, Zelda, Kirby e etc virão. É claro que eles virão. Mas, assim como com Miitomo, a Nintendo está estudando o melhor meio de criar um jogo dessas franquias que case bem com o hardware em questão, ou seja, smartphones. E, por mais que eu adorasse que a Nintendo lançasse todos os Advance Wars para iPhone do jeito que eles estão, só acrescentando a interface touch onde não tem, eu prefiro que ela sente e pense em como criar um Advance Wars melhor que isso, pensado para celular.

Pode ser que tudo isso que eu falei, sobre a Nintendo querer criar a mais divertida experiência possível para celulares ser só wishful thinking, e no fim o Miitomo ser um WhatsApp tosco e o jogo do Mario ser um endless runner porcaria e o Advance Wars ser um clone de Clash of Clans.

Mas, pelo menos agora, neste breve período antes do lançamento de Miitomo, eu acredito! Acredito que a Nintendo vai nintendar de maneira tão nintendística que vou usar Miitomo e vou jogar os demais jogos mobile dela e vou me divertir pra burro, muito mais do que se ela só tivesse defecado todos os jogos já existentes do Mario na App Store.

Se bem que, sendo sincero, ela pode até lançar o Screwy Samus que eu inventei que vou comprar e jogar todos de qualquer jeito.

Screwy Samus

“Melhor que Other M” – O review que vou deixar na App Store.

Links

• Corporate Management Policy Briefing / Semi-Annual Financial Results Briefing for Fiscal Year Ending March 2016 – Oct. 29, 2015 (Nintendo)

• This Is How Nintendo’s First Smartphone Game Miitomo Will Work (Nintendo Life)

• Nintendo Shares Suffer Major Drop as Investors React to Miitomo and Its Delay (Nintendo Life)

• Nintendo Shares Level Out After $4 Billion Drop in Company Value (Nintendo Life)

• Nintendo’s Bold Predictions for the Future (Kotaku)

• Miitomo: What’s Nintendo trying to do with its first smartphone app? (Christian Nutt, via Gamasutra)

• A Defense of Nintendo’s Mobile Game, Miitomo (IGN)

• NINTENDO DEFENSE FORCE (8-4 Play, a partir de 1:10:53 – mas o podcast inteiro é bom, recomendo)

• Reaction: Nintendo’s First Mobile App, Miitomo, Targets the Lucrative Depths of the Blue Ocean (Nintendo Life)

• Just Who Exactly is Miitomo Designed for? (Nintendo Life)

• Miitomo, My Nintendo, & HD Link Model? Oh my! – Nintendo Investor Meeting Discussion (GameXplain)

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